quinta-feira, julho 19

Políticas Sociais

Em dia de sessão de esclarecimento sobre as novas regras do Rendimento Social de Inserção muitas famílias foram surpreendidas pela redução sem aviso prévio do seu subsídio. 
Para ver o vídeo publicado ontem pelo JN basta visitar: http://www.jn.pt/multimedia/video.aspx?content_id=2673591

A medida de apoio social RSI, entre outras como o subsídio de desemprego, vem despoletando incessantes debates na sociedade portuguesa e muitas são as notícias sobre esta medida social. É sem dúvida um dos temas onde as opiniões mais divergem isto porque vivemos numa sociedade muito invejosa e ao mesmo tempo hipócrita. Ao invés dos indivíduos se unirem e lutarem por melhores apoios em direitos básicos como a sobrevivência, dignidade e honestidade, pela igualdade, pela transparência e desburocratização dos apoios, elas caem no erro da discriminação ao próximo, na vitimização, numa luta endógena (dentro da mesma classe) ao invés de uma luta interclassista. Exemplos concretos de discurso corrente desta sociedade relativamente aos beneficiários de apoios sociais são: "Ele não quer é trabalhar!"; "Ele tem um bom carro e ainda recebe ajudas do Estado"; "Ganhar dinheiro sem fazer nenhum também eu queria"...pensamentos típicos. 
Não obstante, esta situação piora quando se percebe que são os próprios políticos e conceituadas entidades a falar em "parasitas" e consequentemente a projectar estas representações na restante sociedade. Se quem devia preocupar-se devidamente com este problema o relativiza então o efeito bola de neve entra em acção e muitas vezes quem de facto merece ser julgado porque brinca com tostões: corrupção e desvio de dinheiro em bancos, hospitais, instituições públicas, continua a sua vida sem qualquer transtorno e quem precisa de ajuda para atenuar o seu estado de pobreza extrema é apontado, socialmente, como um criminoso porque recebe apoios para (sobre)viver e ainda tem que se explicar constantemente que vive em situação de carência social aos olhos da sociedade! 
Devido a este pensamento hipócrita e incorrecto é que os beneficiários são descritos como encostos na sociedade, aqueles "malandros" nos quais o Estado gasta milhões de euros para manter...milhões de euros que em número nem chegam perto dos milhões desviados para offshores no estrangeiro através da corrupção.

Ladrão:



Pessoas trabalhadoras:





Devido a estas representações sociais incorporadas é que a sociedade age como age. Esta é uma imagem típica do que vai nas nossas cabeças; quando o assunto é um assalto, um criminoso, a primeira imagem que nos surge na cabeça é a primeira. Por sua vez, quando se trata de um exímio trabalhador, uma pessoa honesta, a imagem que mais se enquadra nas nossas representações é a segunda. Como afirma Eduardo Vítor Rodrigues, um sociólogo com um notável trabalho no âmbito das políticas sociais "(...) é penoso ver que a hipocrisia do debate colou bem nas representações sociais. O "brutal ataque" ao RSI agrava o estigma, dificulta a inserção social e conduz a uma burocratização exagerada da medida. O que está a acontecer é um processo de estigmatização que afecta, de forma violentíssima, o beneficiário." (in Jornal de Notícias). E esta forma de pensar é uma barreira ao progresso. 
Vejamos o seguinte vídeo resultado de um projecto realizado e produzido por João Carlos Louçã, Nuno Moniz, Ricardo Sá Ferreira, com a colaboração de esquerda.net:



Vivemos numa guerra incessante entre sociedade e beneficiários de RSI (os que supostamente precisam de ajuda para combater a severa pobreza em que vivem). Alguns beneficiários têm um historial de pobreza herdada (de pais passa para os filhos - as principais vítimas) e outros chegaram à pobreza a trabalhar (uns com empregos precários e outros com empregos razoáveis). Ao visualizar o vídeo é perceptível que este é um problema bem mais complexo do que aquele que prolifera nos discursos correntes. Tratam-se de situações muito próprias que exigem soluções bem mais especificas do que as que existem e de um trabalho profundo dos especialistas. Há uma heterogeneidade no que respeita aos beneficiários deste apoio que não pode ser negligenciada. A solução passa em parte por um processo de acompanhamento a par da vigilância contínua. No momento temos: cada equipa multidisciplinar tem a seu cargo, no mínimo, 180 agregados, o acompanhamento próximo das famílias para diagnosticar e ajudar a resolver os problemas que travam a melhoria de vida é quase impossível, sem tempo para diagnósticos, a resposta é igual para todos: novos cursos, estágios e soma de carimbos enquanto que a raiz do problema fica por resolver.

quarta-feira, julho 11

deLicious.1

É que era mesmo isto que me apetecia de momento....



Crepes - Receita fácil fácil


3 ovos
100g de farinha
200 ml de leite
50g de manteiga derretida
Óleo q.b.
Sal q.b.


Junta-se os ovos com uma pitadinha de sal e bate-se. Aos poucos, e batendo sempre, junta-se a farinha, o leite e por fim a manteiga derretida. Deixa-se a massa descansar durante 1 hora, para que perca elasticidade. Leve ao lume uma frigideira anti-aderente e unta-se com um pouco de óleo. Tira-se uma concha do preparado e espalha-se em movimento circular na frigideira. (Notinha: Caso a massa esteja muito grossa, junte um pouco de água, nunca leite). Deixa-se cozer o crepe em lume médio durante alguns minutos, até que fique bem douradinho de ambos os lados! Vai-se repetindo o processo até acabar a massa. Caso não utilize a massa toda, guarde-a num recipiente hermético no frigorífico até 24 horas. Os crepes também podem ser congelados depois de cozinhados e na hora de serem utilizados devem ser descongelados à temperatura ambiente.

Depois é só rechear … Sugestões fáceis para crepes doces:

·                     chocolate quente com amêndoa laminada e açúcar em pó;
·                     nutella;
·                     compotas/doces;
·                     açúcar e canela em pó;
·                     morangos e chantilly/chocolate;
·                     banana laminada regada com chocolate quente;

...



Tschüs*

visuais.1


Marina Ruy Barbosa: Com muito pedigree!!!!




Esta actriz mostrou-se como uma das mais elegantes do evento "14º Prêmio Contigo".





Ela apostou num vestido longo com renda e transparências na parte de cima. Para fechar o look usou a bolsa-carteira e um cinto dourados.





 A ela aplica-se muito bem a expressão «it girl»...Estava maravilhosa no vestido de Patricia Bonaldi!






Tschüss*





“Ouro castanho” vs. chocolate amargo





Em qualquer hipermercado há prateleiras que sussurram palavras doces aos clientes, entre as quais: CHOCOLATE! Em épocas especiais, como a páscoa, o consumo deste produto dispara, mais do que tradição, o chocolate é consumido porque se torna nestas alturas ainda mais apelativo à nossa gula. São os enormes ovos da Páscoa, são as amêndoas de chocolate em embalagens atraentes aos nossos olhos (porque os olhos também comem!), os coelhos da Páscoa, entre outros. 



Mas se é certo que a nós nos cabe esta parte boa, outros indivíduos não têm a mesma sorte. Nos países de Terceiro Mundo – os subdesenvolvidos – o chocolate simplesmente não sabe, ou no extremo, sabe amargamente. Há toda uma história, história triste devo dizer, em volta do cacau (fruto do cacaueiro e cujas sementes são usadas, em grande parte, para a confeção do chocolate).
Os sete países maiores produtores de cacau são a Indonésia, Nigéria, Camarões, Brasil, Equador, Costa do Marfim e Gana, sendo que estes dois últimos correspondem juntos a cerca de 60%  da produção de cacau global, sendo que só a Costa do Marfim corresponde a 42% da produção mundial de cacau. Poderia ser este um assunto perfeitamente normal e estar aqui a abordar os benefícios do chocolate mas a realidade exige um debate sério e reflexivo por parte do ser humano acerca deste assunto. 
Inúmeras crianças trabalham como adultos nas plantações de cacau, crianças entre os 7 e os 15 anos, que deveriam estar na escola, realizam árduas tarefas. Muitas admitem o sonho de ter uma vida longe das plantações, a trabalhar na cidade e a ganhar dinheiro…mas a pobreza assim define que não há propriamente possibilidade de escolha. Com famílias numerosas e com os pais muitas vezes doentes devido a uma vida árdua de labor nas plantações, estas crianças tem que assumir tamanhas responsabilidades com tenra idade. Na Costa do Marfim, por exemplo, o mercado de cacau liberalizou-se em 1998 e, desde então, quem passou a decidir o valor do cacau é comprador itinerante visto não haver preço mínimo para o cacau. Se na verdade a produção de cacau deveria render uma boa quantia aos cultivadores a realidade é o inverso e daí o ciclo vicioso de pobreza e a exploração de crianças nas próprias plantações da família. Trata-se então de trabalho infantil e não uma simples transmissão de aptidões.
Não obstante, o trabalho infantil torna-se uma realidade ainda mais complexa na medida em que abarca outras componentes: o tráfico de crianças e a escravatura.Crianças de países vizinhos são diariamente contrabandeadas e posteriormente mal tratadas com recurso a violência física caso não estejam a trabalhar ao ritmo desejado 
O premiado jornalista dinamarquês, Miki Mistrati, decidiu investigar os rumores de que o chocolate que consumimos é produzido com recurso ao trabalho infantil e tráfico de crianças. Depois de uma ida ao terreno, ele acabou mesmo por denunciar tal situação no seu premiado documentário “O lado negro do chocolate”, para o qual visitou os pontos de tráfico de crianças nas fronteiras da Costa do Marfim até as plantações nas quais as crianças efetuam um trabalho impróprio. As crianças, que na sua maioria nunca provaram chocolate, são expostas a péssimas condições de trabalho devido ao manuseamento de facões, o carregamento de cargas pesadas que podem chegar aos 20 Kg e a exposição a produtos químicos sem qualquer proteção e que origina efeitos que surgem 20 ou 30 anos depois levando a um novo ciclo de pobreza. A Organização Internacional do Trabalho estima que entre 56 e 72 milhões de crianças trabalhem na agricultura  africana, muitas em suas próprias fazendas familiares.


Será que o seu chocolate tem um gosto amargo? Acompanhe Miki até a África para expor “O Lado Negro do Chocolate”.



O famoso jornalista ingressou então numa longa e perigosa viagem a fim de conhecer a verdadeira realidade dos países com plantações de cacau.
          Mali, um dos países mais pobres do Mundo, regista incontáveis casos de crianças contrabandeadas para as plantações de cacau da Costa do Marfim, país com maior número de plantações de cacau. Através de câmaras ocultas, foi possível verificar que as crianças partem constantemente da rodoviária rumo àquele país aliciadas por um salário.
Em Zégoua, cidade que faz fronteira com a C. Marfim, é percetível que o tráfico de crianças é uma realidade muito mais complexa do que se pensa. Este crime envolve inúmeros intervenientes: o indivíduo  que alicia a criança; o que leva a criança de motociclo desde o ponto do autocarro até à fronteira através de caminhos clandestinos e pouco vigiados; aquele que faz a criança cruzar a fronteira e por aquele que aguarda a criança no país de destino. Já em Abidjan o jornalista acabou por encontrar os escritórios das grandes empresas fabricantes de chocolate como a Nestlé, Cargill, ADM, Barry Callebaut.
Miki investe na sua investigação e conhece a 3ª maior exportadora de cacau: a Saf-Cacao. Exportando para os EUA e Europa esta empresa fatura uns míseros 135 milhões de euros ao ano. Quando confrontados com a utilização de mão-de-obra infantil nos cacauzais os dirigentes desta empresa garantem ser totalmente mentira. Até o próprio secretário do Governo da Costa do Marfim afirma que aquele é um país de destino de férias e que as pessoas que vêm de Mali ou do Níger só querem passar uns dias a visitar o país; nas suas palavras, as leis marfinenses são contra o tráfico e o trabalho infantil. Porém, uma vez mais no terreno e visitando outras plantações, a equipa de documentação de Miki encontrou várias crianças a trabalhar, algumas empunhando um machete para extrair as sementes do cacau da casca. Algumas eram de Burkina Faso e não estavam de férias definitivamente. As crianças simplesmente não iam à escola e nem sabiam falar o idioma local. Mas a ida às plantações foi uma tarefa árdua. A camara intimidava os trabalhadores e as próprias crianças e Miki teve que recorrer a camaras ocultas para obter respostas que   esclarecessem as suas dúvidas. O tráfico de crianças e o respetivo trabalho infantil tornou-se então explícito. Ficou-se a conhecer que o preço de cada criança rondava os 230 euros e incluía o seu uso ilimitado por parte do explorador das plantações. Sim, uso ilimitado! E estas crianças acabam por nunca ver um tostão no seu bolso.
A rota do cacau desde o cacauzal até ao fabricante de chocolate segundo o que o jornalista apurou é a seguinte: no cacauzal, onde tudo começa, o cacau é colhido e os grãos são postos a secar ao sol; despois estes grãos são comprados pelos intermediários a cerca de 1,00 euro o quilo; posteriormente são vendidos a exportadores nacionais que tratam de lavar, ensacar e vender os grãos. Nesta fase, o quilo custa já 2,50 euros e os cofres já arrecadam uma fortuna. Na bolsa de valores o cacau é vendido às empresas de chocolate que transformam o cacau em pó ou manteiga de cacau e entretanto os fabricantes produzem o chocolate. Em suma: um quilo de cacau por 1,00 euro é transformado em 40 barras de chocolate…simples hein?!
Segundo as leis internacionais, a realidade que este jornalista dinamarquês registou e documentou é ilegal e apesar das políticas lançadas contra esta realidade terem resultado numa maior sensibilização por parte dos governos e numa abertura deste tema no debate público, a verdade é que tudo se mantêm igual!
Questionadas sobre os fatos, empresas como Nestlé, Mars e Kargill, entre outras, recusaram-se a dar qualquer declaração. Limitaram-se a emitir uma nota conjunta na qual declaravam, entre outras coisas, que nos últimos 9 anos, entre 2001 e 2008, investiram – todas juntas, vale ressaltar – 6 milhões de euros em programas de assistência – o Protocolo de Harkin e Engel - comprometendo-se a erradicar totalmente o trabalho infantil no setor até 2008. Mas os anos passaram… o que realmente não passou foi o trabalho infantil. A universidade americana responsável por avaliar o impacto do protocolo chegou a evidentes conclusões em 2010: a maioria das crianças não beneficiou das medidas implementadas. A indústria deveria investir 42 vezes mais para atingir os objetivos a que se propôs. Os meios continuam a ser ineficazes e atualmente apenas 2% das plantações da Costa do Marfim beneficiaram das ajudas das indústrias do chocolate. Um “aparte” importante: o lucro da Nestlé – sozinha – foi de 12 bilhões de euros no ano de 2009. A mesma Nestlé que detém 12% do mercado mundial.
Em suma, o uso do trabalho infantil na indústria do cacau recorrendo muitas vezes ao tráfico de crianças e consequente escravatura ainda predomina, sobre o olhar literalmente fechado das empresas que faturam às custam de mão-de-obra a custo zero. Quase uma década depois das companhias produtoras de chocolate, os governos e as fundações especializadas gastaram milhões de dólares em esforços para erradicar o trabalho infantil e o tráfico de crianças no mercado internacional de cacau, pouca coisa parece ter mudado. Aliás, o Protocolo que as grandes marcas de chocolate assinaram acabou por ser prorrogado até 2020.
 O trabalho infantil?
           O trabalho infantil é um fenómeno global que viola direitos fundamentais das crianças e que prejudica a sua saúde e o seu desenvolvimento mental, físico, social e moral para além de as privar de frequentar a escola ou as obrigar a um abandono precoce.
        Nas sociedades tradicionais os jovens transitavam diretamente de uma infância prolongada para o desempenho de funções na comunidade o que leva alguns autores como o historiador francês Philippe Ariès a sustentar que a fase de “childhood” não existia como fase separada do desenvolvimento do indivíduo na Idade Média. Ariès fez uma pesquisa sobre o modo como a sociedade europeia via a criança entre o século XI e meados do século XIX e constatou, com apoio em pinturas da época, que as crianças eram representadas com faces de adultos, idêntica forma de vestir e partilhando os mesmos trabalhos e jogos. Durante os séculos XVIII e XIX, e ainda no início do século XX em Inglaterra e na maior parte dos países ocidentais, as crianças começavam a trabalhar em idades que hoje se afiguram demasiado precoces, sendo que mesmo no presente, segundo relatório da UNICEF de 1987, há crianças bastante novas a trabalhar a tempo completo e, por vezes, em trabalhos penosos e perigosos tal como, por exemplo, em minas de carvão ou, fazendo alusão ao assunto que aqui se trata, em plantações de cacau. A noção de que as crianças têm direitos próprios e específicos e de que o trabalho infantil é algo de moralmente condenável tem assim um desenvolvimento recente ao mesmo tempo que as sociedades se tornaram mais centradas nas crianças e na proteção dos interesses destas. Designadamente, a Declaração dos Direitos da Criança proclamada por Resolução da Assembleia-geral das Nações Unidas de 20 de Novembro de 1959, enfatiza o direito das crianças a beneficiar de um desenvolvimento físico, intelectual, moral e espiritual em condições de liberdade e dignidade, o direito a uma escolaridade gratuita e obrigatória e à proteção contra todas as formas de abandono, crueldade, exploração ou admissão a emprego antes de uma idade mínima adequada. Por sua vez a Convenção sobre os Direitos das Crianças adotada pela Assembleia-geral nas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 reafirma estes direitos a que acrescenta outros quais sejam, por exemplo, o da liberdade de expressão, liberdade de pensamento, de consciência e de religião, especificando ainda que criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo. A forma como a valoração e a representação do trabalho das crianças e jovens tem evoluído nas coletividades humanas com ênfase na idade de admissão e nas condições de prestação de trabalho, designadamente em termos de saúde e segurança, delimitam aquilo que hoje se caracteriza como trabalho infantil.
         De acordo com Declaração da OIT, trabalho infantil pode ser definido como o conjunto de atividades suscetíveis de prejudicar a saúde e o desenvolvimento mental, físico, social ou moral das crianças e compromete a sua educação privando-as da oportunidade de frequentar a escola ou obrigando-as a abandoná-la ou, ainda, forçando-as a tentar conjugar os estudos com uma carga de trabalho excessiva, tanto em termos de duração como de penosidade; nas formas mais extremas de trabalho infantil, as crianças são reduzidas à escravatura, separadas das suas famílias, expostas a perigos e doenças graves e/ou abandonadas nas ruas das grandes metrópoles, muitas vezes quando ainda são muito novas.
     Quanto às causas do trabalho infantil salienta-se que a União Inter-Parlamentar concluiu na 96ª Conferência realizada em Setembro de 1996 que a pobreza criada pela desigualdade social e económica e a insuficiência das instituições escolares são as principais causas do trabalho infantil. Os factores relacionados com a oferta são, designadamente: a pobreza; os costumes; as tradições locais; e as famílias numerosas. Os factores relacionados com a procura são, designadamente: as exigências familiares; a economia dos custos e a especial aptidão das crianças para o desenvolvimento de certos trabalhos. O trabalho das crianças existe porque, muitas vezes, a sua sobrevivência e a das respectivas famílias dependem dele e, também, porque adultos com pouco escrúpulos se aproveitam da sua vulnerabilidade. Além disso o trabalho infantil está, em muitas sociedades, profundamente arreigado na cultura local, é socialmente aceite e faz parte da tradição.
          Todavia, a pobreza é a maior causa do trabalho infantil tornando o rendimento auferido pelas crianças essencial para a sua sobrevivência e a do seu agregado familiar. Não pode, igualmente, deixar de se referir que a desadequação ou a fraqueza dos sistemas nacionais de educação contribuem para perpetuar a situação. Neste sentido, as tradições locais e os costumes mesmo quando bem intencionados assumem um papel importante na perpetuação do trabalho infantil.
       Dentre os países com maior número de trabalhadores infantis, destacam-se particularmente os da África, Ásia e América Latina. Elas trabalham em várias atividades de trabalho nos setores agrícolas, indústria, serviço (incluindo doméstico), comércio e mineração. Mas há, também, trabalho infantil em países de economia desenvolvida ou industrializados como os Estados Unidos e países da Europa. As consequências da inserção precoce no trabalho atingem integralmente a criança e o adolescente, desde o desenvolvimento físico, psíquico, escolar, social até a sua cidadania. A inserção precoce é nefasta na vida dessas crianças e adolescentes, dentre outros aspectos, porque lhes nega a infância, etapa importante no processo de desenvolvimento cognitivo e emocional; expropria a subjectividade; promove analfabetismo, baixa escolaridade, evasão escolar; causa deformações corporais e debilidades físicas que alteram o peso/altura; pode causar acidentes com traumatismos e doenças relacionadas ao trabalho; priva de direitos e não possibilita o acesso à formação para o trabalho na vida adulta. 



Não, não é pecado ser um amante do chocolate...pecado é comer, saber o que está por detrás da sua confecção  e pensar que alguém tratará de resolver o assunto! O consumidor tem um papel a cumprir nesta história, para que pelo menos ela tenha um final feliz. Há muitas marcas de chocolate que usam cacau sustentável e que fazem esforços para certificar o chocolate, basta ver nos detalhes da embalagem e talvez esse seja o começo para que as marcas que lideram este mercado e que fecham os olhos às miseráveis condições das crianças que indirectamente para si trabalham comecem a entender que o consumidor quer um produto bom (sim!), apelativo (sim!) mas sobretudo digno (para que caia bem não só no estômago bem como nas consciências!)



Tchüss*


sexta-feira, julho 6

Rasta, love it!


    O ser humano tem vivido, desde sempre, em grupo e, neste sentido, são seres sociais. Homens e mulheres sempre viveram num estado cultural, distinguindo-se assim das restantes sociedades animais. A vida em grupo tem conduzido ao desenvolvimento de regras e procedimentos que visam a satisfação das necessidades da colectividade, afastando-a de um estado selvagem. Em suma, podemos afirmar que a vida em grupo é uma vida em estado de cultura pois a sociedade exprime-se e realiza-se através de uma cultura.
A cultura representa tudo o que é socialmente aprendido e partilhado pelos membros de uma comunidade. É um fenómeno onde todos os membros do grupo têm lugar, ou seja, é um fenómeno partilhado que concede a cada um características básicas que o distinguem dos membros de outro grupo (portadores de outra cultura). Em sentido sociológico, ela consiste num conjunto de maneiras próprias de pensar, sentir e agir de um qualquer grupo. Desta forma, pode-se afirmar que todos os indivíduos integram uma cultura.
     De uma forma prática podemos dizer então: o choro à nascença não é exclusivo de qualquer grupo, faz parte da natureza biológica do ser humano; mas o choro em circunstâncias determinadas é um traço característico de uma certa forma de viver: é um elemento cultural. A alimentação é um outro exemplo: comer enquanto acto para sobreviver constitui um acto biológico; mas alimentar-se de acordo com um horário fixo, um determinado tipo de alimentos e usar determinados utensílios é um acto que se aprende de acordo com o grupo em que estamos inseridos – é um acto cultural. Quando os sociólogos falam do conceito de cultura, referem-se a esses aspectos da sociedade humana que são aprendidos e não herdados.
Não obstante, é possível encontrar grupos restritos cuja acção social se manifesta através de alguns traços culturais próprios e distintos dos que caracterizam a sociedade global - as subculturas. Com este conceito refiro-me a qualquer segmento da população que se distinga do resto da sociedade em virtude dos seus padrões culturais. A variedade de subculturas é grande, inclui os naturistas, os góticos, os rastafári etc., e são toleradas na medida em que não coloca em causa a cultura dominante.
     Rastafári é um movimento religioso que surgiu na Jamaica em meados dos anos 20 entre a classe trabalhadora e os camponeses negros, que apela à repatriação dos mesmos ao seu lar ancestral: Etiópia - África. Este movimento proclama Hailê Selassiê I, imperador da Etiópia, como a representação terrena de Jah (Deus).






     A etimologia da palavra Rastafari provém da junção de duas palavras: Ras ("princípe" ou "cabeça") com Tafari ("da Paz"). Traduzindo-se em "cabeça da Paz”. São adeptos de um movimento político-religioso surgido na Jamaica no século 20, em resposta às miseráveis condições sociais e económicas dos descendentes de escravos africanos trazidos para as Américas durante o período colonial, ou seja, entre os camponeses e trabalhadores negros, que eram altamente explorados e maltratados na época.
     O rastafári começou como uma forma de restituir a auto-estima e a autonomia espiritual do povo negro no Novo Mundo, solapadas pela ideologia colonialista e pela discriminação racial, sendo que a principal figura foi o sindicalista jamaicano Marcus Garvey; baseado em ideias do Velho Testamento, passou a proclamar que todos os negros deveriam retornar a África, de onde teriam sido retirados por causa da escravidão.
     Garvey identificava ainda os negros com a mesma história dos povos perdidos de Israel, vendidos aos senhores, ou seja, escravos de uma Babilónia moderna. Em 1929, quando pregava numa igreja, Garvey disse: "Olhem para a África. Quando um rei negro for coroado, a redenção estará próxima." A afirmação foi tida como uma profecia, pois o negro Tafari Makonnen (1892-1975) auto-coroou-se como imperador da Etiópia um ano depois. Antes de ascender ao poder, Tafari Makonnen era chamado "Príncipe Tafari", ou Ras Tafari, no idioma local. Por isso, quem acreditava nas ideias de Garvey e via o imperador como um messias passou a ser chamado Rastafári.
     Os “rastas” seguem um conjunto de preceitos bíblicos, como a abstenção do consumo de álcool ou carne e a proibição do corte de cabelos. Já outras práticas, como o uso da maconha e a crença na superioridade da raça negra, não são partilhadas por todos os seguidores. A maioria crê na suposta divindade do ex-imperador da Etiópia, Hailé Selassié (1892-1975), tido como encarnação de Deus e chamado de Jah. A Fé Rastafariana é uma forma de vida, com muitas ligações à fé judaica e cristã, onde quase todos os seus fieis têm as suas próprias ideias acerca das coisas. Os Rastas acreditam que Jah (Deus) se mostra sob forma humana de tempos a tempos. Eles têm as suas próprias ideias, sendo o Rastafári uma forma de vida, e não uma religião como muitos pensam. Eles são contra a opressão, pobreza e desigualdade (que são problemas globais), amam e respeitam a irmandade da humanidade, levam uma vida cristã, de caridade e auxílio ao próximo, desaprovam o ódio, ciúmes, inveja, engano, fraude e traição, não aprovam os prazeres da sociedade moderna e os seus males correntes.
     O aspecto mais saliente de um Rasta são os dreadlocks (a que chamamos rastas), canudos fortes, que não são escovados ou penteados. 
É o símbolo da união com Jah e do empenho numa vida justa e natural. Os dreadlocks são um belo exemplo da dualidade “Natureza/Protesto”, isto porque o acto de deixar o cabelo crescer sem cortar nem pentear, é para o Rastafári um sinal de naturalidade, fruto de desapego material e resultado da sua própria natureza inalterada; e por outro lado, como o próprio nome diz, são “madeixas que chocam” e os dreadlocks, vendo nessa perspectiva, são um modo de protesto e contestação para mostrar a condição de escravidão a que o negro foi submetido na Babilónia. O desapego material simbolizado nos dreadlocks é o mesmo desapego aos produtos industrializados e à tecnologia em geral, desapego este que corrobora com todas as práticas da visão de mundo rastafari, sinónimos de “natureza” e “protesto”. Outro motivo apresentado pelos Rastas relativamente ao dreadlock é que a barba e os cabelos compridos representam a juba do leão, símbolo da filosofia Rasta.
     No final da década de 60, em condições de extrema pobreza os rastas procuravam manter-se financeiramente através da arte, em especial no artesanato, mas onde melhor a cultura Rasta se propagou foi na música com o Reggae. Assim, também nascido na Jamaica, o reggae foi porta-voz de várias mensagens do rastafarianismo, tendo sido Bob Marley (1945-1981) o maior representante deste estilo musical e para muitos, o principal símbolo do movimento Rastafári no Mundo. No ano 2000 havia aproximadamente um milhão de seguidores do rastafarianismo pelo mundo, algo difícil de ser comprovado devido à sua escolha de viver longe da civilização. Por volta de 10% dos jamaicanos identificam-se com os rastafáris. Muitos rastafáris são vegetarianos, ou comem apenas alguns tipos de carne.


     A cultura rastafari tem uma ligação muito forte com a natureza, princípio básico da criação. Por essa razão, os "rastas" são naturalistas e vegetarianos, ou seja, não comem carne de nenhum animal morto, porque segundo eles o corpo que o consome torna-se o cemitério desse animal. As cores têm importância fundamental e marcante, pois traduzem significados que representam a própria subcultura rastafari, com seus princípios básicos de união e defesa de suas raízes.
     O símbolo mais notório do Rastafári são as cores que eles utilizam: vermelho, verde e amarelo. O vermelho simboliza a triunfante igreja dos rastas e o sangue derramado pelos negros na escravidão; o verde é a beleza da vegetação da Etiópia e da terra prometida; o amarelo representa a riqueza e a prosperidade do continente africano. O leão, representa ainda a força, coragem e dignidade.



     Mas e quando a cultura dominante é colocada em causa? Então o termo adequado será o de contracultura. Este conceito, de forma prática, significa a oposição aos valores da cultura dominante. Como exemplo de uma contracultura temos os Hippies.
Na década de 1960 o mundo conheceu o principal e mais influente movimento de contracultura já existente, o movimento Hippie. Estes adoptam um modo de vida comunitário ou estilo de vida nómada, negando o nacionalismo e abraçando aspectos de religiões como o budismo, hinduísmo, e/ou religiões de culturas nativas norte americanas.
Esta contracultura que nasceu e teve o seu maior desenvolvimento nos EUA, era composta por uma juventude de classe média-alta e escolarizada que se opunha radicalmente aos valores culturais considerados importantes na sociedade: o trabalho, o patriotismo e nacionalismo, a ascensão social e até mesmo a "estética padrão"; recusava ainda a injustiça e desigualdades da sociedade americana, nomeadamente a segregação racial, desconfiava do poder económico-militar e defendia os valores da natureza. Na sua expressão mais radical, os jovens hippies abandonavam o conforto dos lares paternos e rumavam para as cidades, principalmente S. Francisco, para aí viver em comunidade com outros hippies, noutros casos estabeleceram-se em comunas rurais. Os dois principais valores defendidos eram a "paz e o amor". Opunham-se a todas as guerras e a palavra de ordem que melhor resume este movimento é a famosa expressão “Make Love Not War”.



     Os hippies usavam o cabelo e barba compridos e o seu estilo era composto por várias cores, o que foi revolucionário para a época: usavam calças à boca-de-sino, roupas de inspiração indiana e também roupas tingidas ou manchadas. Como símbolo tinham o “Pé de Galinha”: uma cruz invertida com os “braços” caídos que simboliza a "verdadeira" paz sem Cristo. Os hippies O principal marco histórico da cultura "hippie" foi o "Woodstock," um grande festival ocorrido no estado de Nova Iorque em 1969, que contou com a participação de artistas de diversos estilos musicais, como o folk, o "rock'n'roll" e o blues, todos esses de alguma forma ligados às críticas e à contestação do movimento.





Tschüss*

terça-feira, julho 3

Violência Doméstica - um fenómeno de natureza complexa


 “O Observatório de Mulheres Assassinadas registou em 2011 em Portugal o homicídio de 27 pessoas num contexto de conjugalidade e relações de intimidade, mas as queixas de violência doméstica apresentadas às autoridades são, em média, de quatro por hora”.


por Lusa



A família é idealizada como um espaço seguro e de muita importância na procura da felicidade pessoal. Ela é fonte de afecto, protecção, bem-estar e é um lugar onde os seus diversos elementos podem encontrar compreensão e auxílio na manutenção de uma vida emocional e afectiva estável. Para François de Singly a família assume uma dimensão identificadora na medida em que abre caminho para construção de uma “identidade individualizada” e não se trata apenas das crianças mas também dos adultos. Todavia, embora a família seja um refúgio e lugar de afectividade, ela é também espaço de violência e opressão sobre os seus membros. Ao longo dos tempos crianças, mulheres, homens e idosos, têm sido alvo das mais diversas formas de violência na família. Os crimes de agressão física, verbal, abuso sexual, emocional, psicológico, incesto, entre outros, ocorrem com muita frequência no seu seio e enquadram-se num padrão de comportamento amplamente coberto pelo conceito de violência doméstica. Vários estudos têm apontado a Instituição Familiar como uma das mais violentas, onde afectividade e violência podem coexistir nas relações familiares, nomeadamente na relação conjugal. Elza Pais (1996) alerta que “ (…) em Portugal, 40% dos homicídios são cometidos no âmbito das relações de parentesco”.
Embora a violência doméstica sempre tenha existido, ela foi durante muito tempo descurada por diversas razões. O estatuto da criança, no domínio legal, sempre foi muito débil ao longo da história. O infanticídio, a mutilação, o abandono, a exploração financeira, o abuso físico, verbal, emocional, psicológico e sexual são práticas legais e socialmente reconhecidas desde Roma Antiga até às sociedades pré-industriais. Nos tempos romanos, o princípio do Pátrio Poder (Patria Potestae) legitimava todo o tipo de abusos infligidos pelos pais às crianças. Eles podiam-nas vender, sacrificar ou até matar (Dias, 2004a:65). A cultura ocidental está cheia de exemplos que nos recordam o direito dos pais empregarem a força física sobre os filhos. Os contos infantis e as cantigas de embalar veiculam a mensagem de que o uso da violência sobre as crianças não só é adequado, como necessário. A ideologia religiosa também contribuiu para a reprodução da cultura de violência sobre as crianças devido à ideia de que estas “nasciam corrompidas pelo pecado original”, necessitando de serem resgatadas pelos pais; esta noção sustentou, durante muito tempo, a crença de que tudo era para o bem da criança, inclusive, a violência que historicamente lhe tem sido infligida (Ibidem:54). Na sociedade do Antigo Regime o infanticídio, o aborto e abandono de crianças contribuíram para a devastação da população infantil,
perdurando esta mesma tendência na Revolução Industrial, um dos períodos históricos mais marcantes ao nível dos maus-tratos às crianças, as quais eram obrigadas a trabalhar longas horas nas fábricas, em condições desumanas deploráveis.
Também o estatuto social e legal dos idosos tem variado historicamente. Se na Grécia Antiga a velhice era vista como sendo triste e ridícula, e por isso mesmo desvalorizada, a época romana conheceu, nesta matéria, dois períodos: um alimentado pela ideologia do Pater Famílias, em que o idoso tinha um estatuto favorável e outro, o do tempo Imperial, que rejeitava a velhice. No Renascimento e até ao final do século XVII prevaleceu o culto da juventude, o que levou a sociedade a negligenciar o idoso. Já no século XVIII este último passou a ser reconhecido enquanto ser completo, tendência que prosseguiu até à época das Luzes, altura em que começou a ser produzida legislação com vista à protecção dos idosos, sobretudo dos mais carenciados. No século XIX dá-se o aparecimento de novas instituições, como o asilo, cuja finalidade era a de reintegrarem os idosos na sociedade. A industrialização trouxe porém a desvalorização da velhice, muito associada à improdutividade; estes discursos negativos perduraram até aos anos 80. Nos anos mais recentes, as associações e movimentos políticos de defesa e promoção dos direitos dos seniores passaram a veicular um novo entendimento de velhice.
A crença de que os maus-tratos aos idosos são um fenómeno novo e exclusivo das sociedades actuais, tem sido desconstruída através de inúmeros estudos. O que é recente é o reconhecimento desta forma de violência como um problema social grave que necessita de intervenção social e legal.
            O estatuto social das mulheres não teve um passado diferente dos anteriores. Histórica e legalmente aos homens foi conferido o direito de controlar e exercer poder sobre as mulheres e as crianças. Encaradas como propriedade ou como fonte de trabalho e rendimento para a família, a lei via-as como categorias sociais dependentes, desprovidas de direitos. Esta herança cultural e legal, assente em séculos de dominação sócio-económica e ideológica, não só assegurou a prevalência do poder masculino no lar, como afectou dramaticamente a posição das mulheres e das crianças na sociedade, na lei e nas instituições legais. As referências ao papel submisso das mulheres são de longa data e encontram-se, por exemplo, na literatura grega (ex., “a mulher deve ser discreta, não deve discutir com o homem, nem falar primeiro”) e na própria lei romana que tolerava o homicídio conjugal no caso de elas serem adúlteras, alcoólicas ou na presença de outros comportamentos inapropriados. Deste modo, as mulheres casadas eram legalmente inexistentes. Através do casamento, as mulheres perdiam a sua identidade legal individual, passando a constituir, juntamente com os maridos, uma entidade legal única, cujo representante era o homem. As autoridades apenas advertiam os homens de que a disciplina por eles infligida ao género feminino devia ser moderada. A expressão coloquial “rule of thumb”, que teve origem numa lei de 1768, afirmava que os “maridos tinham o direito de punir fisicamente as mulheres mal comportadas, desde que a vara não fosse mais grossa do que o polegar” (Gelles, 1993:2). Até ao final do século XIX não existiam leis em Inglaterra e nos Estados Unidos da América que proibissem os homens de maltratarem as mulheres, excepto no caso de haver homicídio (Dias, 2004a:68). Tradicionalmente a lei também isenta os homens do crime de violação no contexto da conjugalidade. A noção de que o contrato de casamento legitima todo o tipo de actos sexuais, inclusive os que são violentos e fisicamente forçados, ainda continua a estar presente no universo representacional e legal dos nossos dias. Para muitas mulheres o consentimento que é conferido aos homens para terem relações sexuais com elas no casamento só é revogado através do divórcio. A percepção de que as mulheres têm um tratamento diferente perante a lei, não se sentindo por ela totalmente protegidas, continua a estar presente nos debates dos nossos dias.
A violência doméstica constitui assim um fenómeno de longa data. As nossas sociedades estão repletas de crueldades cometidas contra as crianças, as mulheres e outros membros da família. No nosso país, apesar de se supor que é um fenómeno que afecta inúmeras famílias, só recentemente é que foi colocado de forma evidente na agenda política nacional. Então o que levou este fenómeno a ser identificado enquanto problema social?
São vários os factores que, em conjunto, conduziram à identificação da violência doméstica como um problema social: nos dias que correm há uma maior a sensibilidade e intolerância social face aos comportamentos violentos; o facto da comunidade pediátrica em colaboração com profissionais de outras áreas disciplinares (magistrados, juristas, psiquiatras, técnicos do serviço social, educadores de infância, professores, sociólogos e psicólogos), tornarem os maus tratos às crianças praticados pela própria família num assunto público; pelo papel desempenhado pelas Organizações Não Governamentais que através das suas estratégias de apoio e intervenção têm vindo a conferir alguma visibilidade à violência de que muitas mulheres são alvo no contexto das relações conjugais; a atenção conferida pelos meios de comunicação social que despertam maior sensibilização pública para este problema (as principais fontes de referenciação dos/as utentes para a APAV no ano de 2011 foram a publicidade (9.4%), os amigos/conhecidos (6.7%), os familiares (4.8%) e a
Comunicação Social (4.5%)); uma nova atitude face a este fenómeno por parte dos serviços sociais de apoio e de protecção à vítima, decorrente duma formação mais adequada dos seus agentes; criação, na década de noventa, de legislação especificamente voltada para as vítimas de violência doméstica, que levou Portugal a dar resposta não só a um problema social cuja consciencialização dos seus efeitos nas vítimas e nas famílias onde ocorre é crescente, como foi ao encontro de um conjunto de recomendações europeias desenvolvidas neste domínio.
Assim sendo, o fenómeno da violência doméstica é uma das maiores contradições da família moderna, já que «se, por um lado, esta assume a realização pessoal dos seus membros, a partilha das tarefas, a igualdade de oportunidades e elevados níveis de comunicação conjugal e intergeracional como dimensões essenciais à sua organização e funcionamento, por outro lado, ela não está completamente desprovida de violência. (…) Devido à regularidade com que acontece e à legitimidade cultural que lhe é atribuída, a violência doméstica tornou-se (…) uma componente quase “normal” da vida familiar» (Dias, 2004: 49). A família, para alguns indivíduos, representa o espaço onde são vítimas de diversas agressões e não o lugar privilegiado dos afectos e de realização pessoal. No dia-a-dia as notícias dão-nos a ocorrência de inúmeros casos de violência doméstica, nomeadamente da violência que é exercida entre os cônjuges. Indo de encontro à notícia publicada pela Luso, o número de queixas de violência doméstica é em média de 4 por HORA, não 4 por mês ou por dia, o que por si já era muito mau. São sobretudo as queixas de mulheres face ao seu cônjuge, o marido, que enchem as listas de queixas de violência doméstica nas instituições. De seguida irei fazer uma breve análise aos dados publicados no relatório anual 2011 pela APAV.


- A violência entre cônjuges ou casais em situação análoga é superior à praticada contra as crianças e idosos;

-  São os crimes contra a integridade física que mais ocorreram no âmbito da violência doméstica;

- No que respeita à caracterização da vítima:


    • Das 8 693 vítimas de crime que recorreram aos serviços da APAV em 2011, 80% eram do sexo feminino;


                                                                                            Fonte: APAV


    • As faixas etárias das vítimas revelaram-se bastante diversas, destacando-se, no entanto, as faixas dos 65 ou mais anos (8.6%) e entre os 35 e os 40 anos (7.7%);

    • No que diz respeito ao estado civil, as vítimas que contactaram os serviços da APAV eram, maioritariamente, pessoas casadas (36%) e com um tipo de família nuclear com filhos (41.7%);

                                                  Fonte: APAV


    • Como se tem constatado nos últimos anos, a análise estatística revela-nos que o grau de ensino das vítimas de crimes que contactaram os nossos serviços varia entre o Ensino Superior (5.7%) e o Ensino Básico de 3º ciclo (4.8%). No entanto, o número de vítimas que não têm qualquer nível de ensino tem vindo a crescer, como se pode evidenciar pelos 12% assinalados. Quanto à principal actividade económica, cerca de 39% encontram-se empregadas, seguindo-se o universo das pessoas domésticas (22%) e só depois as desempregadas (15%);



                                                                                           Fonte: APAV




    • As vítimas cujo principal meio de vida é o próprio trabalho rondam os 30%. O facto das mesmas se encontrarem a cargo da família (16.5%) torna evidente algumas das fragilidades da situação de vitimação que podem estar a viver;

    • Em termos da distribuição geográfica das vítimas que recorreram aos serviços da APAV em 2011, as zonas mais populacionais estão em evidência. Lisboa surge em primeiro lugar com cerca de 15%, seguindo-se Faro (7.4%), a Região Autónoma dos Açores (4.8%) e a cidade de Setúbal (4.7%);
                                                                               Fonte: APAV
  • Um dos pontos importantes de análise para a APAV, diz respeito à relação da vítima com o autor do crime. Esta informação permite-nos conhecer o ou os tipos de crime mais associados. As relações de conjugalidade sobressaem face às restantes, perfazendo um total de 54% (relações actuais e anteriores). Seguem-se os filhos (10.9%) e os pais (7.6%);

                                                                                                           Fonte: APAV



    • Quanto ao sexo do autor da violência doméstica, num universo de 8 693 de vítimas que recorreram aos serviços da APAV em 2011, 78% eram do sexo masculino e 11% do sexo feminino;

    • Tal como no caso das vítimas, também o autor do crime é maioritariamente casado (38%), seguindo-se os solteiros em 18% das situações;
                                                                                       Fonte: APAV

    • No que respeita ao nível de ensino do autor do crime, cerca de 20% não possui qualquer grau, sabendo apenas ler e/ou escrever. Já em termos de grau de Ensino propriamente dito, o Ensino Superior destaca-se face aos restantes, com 3% dos casos;


                                                                                    Fonte: APAV


    • Relativamente à actividade económica do autor do crime, cerca de 43% dos autores encontravam-se empregados, seguindo-se os desempregados em 12.3% dos casos. O trabalho é o principal meio de vida do autor do crime com registos na ordem dos 30%. Seguem-se as situações a cargo da família (17%) e de pensão/reforma (11%);

- Dado que, no que diz respeito à relação da vítima com o autor do crime, a relação que mais se destacava era de cônjuge, não é de estranhar que o local de crime mais vezes registado tenha sido a residência comum, com quase 50% dos casos;

- Existe ainda um grande desfasamento entre a ocorrência do crime de violência doméstica e o número de indivíduos que são efectivamente detidos;

- Importa ainda salientar que apesar da visibilidade que a violência doméstica vai adquirindo em Portugal, ainda se trata de um fenómeno dotado de uma grande opacidade. E assim permanecerá se não se promoverem estratégias diversificadas e adequadas de abordagem e intervenção.






Tschüss*

                                               

    Bibliografia




    APAV (2012), ESTATÍSTICAS APAV - Relatório Anual 2011, Lisboa: APAV


    Dias, Isabel (2004a), Violência na Família. Uma abordagem Sociológica, Porto, Edições Afrontamento

    Gelles, Richard (1993), “Family violence”, in Robert L. Hampton et al. (eds.), Family Violence – Preventing and Treatment, California, Sage Publications, pp. 1-24